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Vitor Ramil lança disco com canções inspiradas na poesia de Angélica Freitas

“Avenida Angélica”, patrocinado pelo Natura Musical, foi gravado no palco do Theatro Sete de Abril, ainda em obras

Showw foi gravado no palco do Theatro Sete de Abril, símbolo da cultura em Pelotas (Foto: Reprodução)

Conectado pelas ruas planas de Pelotas, Avenida Angélica, novo disco ao vivo de Vitor Ramil, foi lançado nesta quinta-feira (7). O álbum, patrocinado pelo edital Natura Musical e financiado pelo Pró-Cultura RS, é composto por canções inéditas a partir dos livros Rilke Shake e Um útero é do tamanho de um punho, da poeta pelotense Angélica Freitas. A gravação ocorreu no ano passado no palco do Theatro Sete de Abril, ainda em obras.

A sensibilidade de Vitor com os escritos da conterrânea já havia sido registrada no disco anterior, Campos Neutrais, com a canção Stradivarius. Angélica participou também das gravações do novo trabalho, no gelado agosto pelotens, com a leitura de um poema, Ítaca, gravado em vídeo diretamente de Berlim.”Fui tocado por essa verdade que não é minha. Compus muito durante a pandemia, para mais dois ou três álbuns (aliás, esclareçam a este pequeno agricultor: ainda existem álbuns no agronegócio da música?). Mas é bem possível que eu volte a gravar, em estúdio, algumas canções do Avenida Angélica. Elas me fazem bem. Espero que façam o mesmo a quem nos ouvir”, comenta o artista.

Disco é composto a partir dos livros Rilke Shake e Um útero é do tamanho de um punho (Foto: Reprodução)

O projeto inicial, aprovado no Natura Musical, previa turnê do show por Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Florianópolis, mas a pandemia demandou adaptações. A primeira ideia foi a realização de uma live no Sete de Abril, o terceiro teatro mais antigo do País, mas de portas fechadas desde a interdição pelo Ministério Público (MP) em 2010, por problemas estruturais.

Como forma de contribuir com os profissionais que tiveram as atividades interrompidas completamente por conta da Covid-19, bateu-se o martelo sobre a gravação do show, com equipe completa de filmagem, som, edição. “Achamos que um álbum reunindo o repertório filmado deveria fazer parte dessa documentação (do restauro do teatro). Seria isso: um documento, momento de nossas vidas e da volta à vida do velho teatro”, conta Vitor.

Confira o show e, abaixo, apontamentos de Angélica e Vitor sobre as canções:

Algumas canções comentadas

por Angélica Freitas e Vitor Ramil

Rilke shake

Vitor: Rilke Shake, que abre o álbum, encerra o show e o vídeo Avenida Angélica. Ao final da canção o que se ouve são os sinos da Catedral Metropolitana de Pelotas, que gravei com o celular ao perceber que tocavam no tom e no andamento da música. No espetáculo, a presença deles ao final ecoa o poema da Angélica apresentado na abertura por Isabel Ramil, em que é citada canção If I had a hammer, de Pete Seeger, cuja letra diz: “If a had a bell (…) I’d ring out love between my brothers and my sisters all over this land”. Ao final do túnel no vídeo da Isabel para Rilke Shake, seguindo sugestão do poema, adotamos o ponto de vista de um dervixe imaginário que dança e “vê” girar a seu redor o entorno da Praça da Matriz, em Montevideo. Curiosamente, as imagens processadas sugerem colunas de alguma igreja infinita.

A mina de ouro de minha mãe e minha tia

Angélica: Essa é uma história real. Minha mãe nasceu na Colônia de Pescadores Z3, em Pelotas. Ela e uma irmã, Luci, tinham espírito empreendedor e iam vender cosméticos numa ilha na Lagoa dos Patos. As mulheres que lá viviam tinham pouco acesso a cosméticos – tudo que compravam vinha de Pelotas, a cidade mais próxima, mas era preciso empreender uma viagem de bote e depois de ônibus para chegar às lojas. Minha mãe contava que a ideia foi um sucesso. Elas ganharam bastante dinheiro, pelo menos para os parâmetros delas, mas parece que o mais importante ainda era a aventura. Adorava ouvir esses causos da juventude da minha mãe, e agora que ela não está mais aqui para contá-los, fico feliz por ter escrito esse poema.

Vitor: É uma das canções mais recentes do repertório, mas desde a primeira leitura deste poema eu soube que iria musicá-lo. Queria fazer uma canção leve e tocante. A história familiar da Angélica aqui contada me comove, e posso enxergar as locações pelotenses na luminosa Lagoa dos Patos: a colônia de pescadores Z-3 e a Ilha da Feitoria.    

Família vende tudo

Angélica: Quando morava em São Paulo, muitas vezes vi faixas pelas ruas com essa frase e um número de telefone. E me perguntava: o que aconteceria se uma família decidisse vender tudo mesmo? O poema foi um exercício de imaginação. Gosto muito de escrever a partir de coisas que encontro pela cidade e que me provocam, me tiram do automático. É também o caso do poema Sashimi: vi uma faixa anunciando um curso de sushiman, e a minha reação foi me perguntar por que era dirigido apenas a homens. Cheguei em casa e escrevi o poema. 

Vitor: Foi composta na sequência de R.C., voltando de um show, a bordo de uma van, na estrada que liga Porto Alegre e Pelotas. Uma canção contundente, em especial para este momento que o país atravessa, mas sempre com o humor único da Angélica.

Stradivarius

Angélica: Escrevi este poema a partir de outro, O grande desastre aéreo de ontem, do Jorge de Lima. Era uma proposta da oficina do poeta Carlito Azevedo, da qual participei no inverno de 2005. No poema original, sobre uma queda de avião, havia vários personagens, e precisávamos escolher um deles para dar-lhe voz. O eleito por mim foi o violinista. O título original do meu poema: O que passou pela cabeça do violinista em que a morte acentuou a palidez ao despenhar-se com sua cabeleira negra e seu stradivarius no grande desastre aéreo de ontem. Eu andava experimentando o quanto de fôlego cabia num verso.

Vitor: Gravei esta canção no álbum Campos Neutrais porque, à parte a presença da Angélica naquele trabalho ser muito significativa, musicalmente tinha muito a ver com aquele repertório. 

R.C.

Angélica: Ouvi muito rádio na minha infância, principalmente na cozinha, com as empregadas que trabalharam lá em casa. Gostavam de música romântica, Amado Batista e Gilliard, principalmente. Também ouvia música no carro dos meus pais, sempre rádios AM. E aí era comum ouvir o Roberto Carlos. R.C. é uma singela homenagem àqueles tempos de formação sentimental.  Ah: o Vitor foi o primeiro leitor que entendeu de primeira o significado dessa abreviação.

Vitor: Foi irresistível compor para este poema uma música a la Roberto Carlos, brincar um pouco.

Mulher de malandro

Angélica: Um dos poemas da série “Mulher de”, do meu segundo livro, Um útero é do tamanho de um punho. A proposta da série é subverter algumas ideias já gastas. Por que a mulher do malandro não pode ser uma malandra também? Eu havia lido algumas coisas sobre o Henry Miller, sobre como ele pegava dinheiro dos amigos, nunca pagava de volta, nunca pagava por uma refeição… Sempre me fascinaram, esses artistas. Talvez porque eu nunca seria capaz de fazer algo parecido.

Vitor: Tipo um samba de breque. Nasceu assim, só melodia. É o mesmo caso de Versus eu e Bigodinho. Volta e meia musico poemas dessa forma, sem usar o instrumento. Já aconteceu com Gaudério, deJoão da Cunha Vargas, gravado no disco Ramilonga e Se eu fosse alguém, de Antonio Botto, gravado em Campos Neutrais, por exemplo.

Cosmic Coswig Mississipi

Vitor: Um bom exemplo do poder que a poesia da Angélica tem de me atrair para gêneros musicais em que nunca me aventurei, no caso, o blues. O Coswig do título refere-se ao Recanto dos Coswig, pousada e parque bucólico na zona da colônia alemã de Pelotas.

Vida aérea

Vitor: Canção minimalista, violão com afinação preparada. Foi o primeiro poema da Angélica que musiquei, em 2008, um pouco depois de ter ganhado o primeiro livro dela de nosso editor comum na Cosac Naify, Augusto Massi. Não a conhecia antes disso, embora ela tivesse morado a uma quadra da minha casa em Pelotas durante muitos anos.

Ringues polifônicos

Vitor: A música vem firmemente ritmada até chegarem os “tênis alados e os paulistas voadores, portadores esvoaçados de baseados nas calças jeans”. Então tudo se esvoaça. Dos versos “alça voo a aventura na avenida angélica” extraí o nome do show e depois do álbum.

Siobhan

Vitor: Talvez seja minha canção favorita neste trabalho. Acho suas imagens tão poderosas que a canto “enxergando” tudo, de personagens imaginados a lugares reais como Hamburgo, onde estive para trabalhar em um livro. É um poema de amor poderoso e tocante. Espero ter correspondido a ele.